Arca de Ternura
sexta-feira, 24 de abril de 2020
O Cravo de Abril - Fernando Peixoto
Sorri, brinquei, cantei sem me cansar,
Aprendi com os outros a sonhar
Descobrindo o Futuro, ali à frente.
A voz, ergueu-se harmoniosamente
Na canção que aprendemos a cantar:
Da gaivota, teimosa, que a voar
Pelos céus passeava alegremente.
Brilhava o sol de Abril, a Primavera
Corria p’ra acenar um tempo novo
Repleto de esperança e de utopia.
Por fim, na minha terra, florescera
Um novo sonho: o cravo deste povo
Que em Abril se encontrava e renascia.
25 DE ABRIL DE 2004
Fernando Peixoto
Texto de Alfredo Correia sobre Fernando Peixoto em 25 de Abril de 2008
Homenagem Fernando Peixoto
TAS - Teatro Amador de Sandim
Companheiro Fernando Peixoto
Permite-me que neste acto público te trate como amigo e diga que me sinto honrado por me terem dado esta oportunidade e afirmar o quanto estou solidário com a homenagem que prestam ao Homem de teatro, da Poesia e da Família.
E se, pelo teu teatro sinto paixão, pela tua poesia sou atraído, pela tua família tenho respeito e admiração. Por isso, é meu entendimento, que o Teatro Associativo é, e tem uma família muito especial.
Companheiro e Amigo Fernando Peixoto
Quero dizer-te que nunca escrevi o teu nome nas areias da praia.
Quero dizer-te que és um LOBO do MAR deste imenso oceano, chamado Teatro Associativo, e que muito tens feito para que os Amadores possam manejar melhor os remos da sua embarcação, nas águas tantas vezes turbulentas, e que muito dificultam, esses , muitos Homens e Mulheres ,- voluntariosos tripulantes e timoneiros- , desta Grandiosa Nau Teatral e Associativa.
Quero dizer-te que no barco do Amasporto está um Leme com o teu nome gravado, de que tanto se orgulha o Talma.
Quero dizer-te que o teu nome, tenho-o escrito numa pedra, que guardo bem fundo das águas , do meu peito.
Aceita um abraço fraterno e solidário, de quem te respeita e te admira.
Sempre
Alfredo Correia
25 de Abril de 2008
quinta-feira, 23 de abril de 2020
Apresentação do Livro Memórias da Memória de Cesário Guedes Costa por Fernando Peixoto
BIBLIOTECA DE GAIA
MEMÓRIAS DA MEMÓRIA ou A CATARSE DO TEMPO
DE FERNANDO PEIXOTO
Deixem-me confessar-vos com toda a sinceridade: eu não queria fazer a apresentação deste livro. Por dois fortes motivos. Primeiro porque, depois do prefácio do escritor Hélder Pacheco - que o leu com a generosa e humilde atenção, disponibilidade de que só desfrutam os verdadeiros homens cultos - pouco fica para dizer; e este «parto» do Cesário (que não foi de cesariana), é credor de uma apresentação cuidadosa; a segunda razão é que o percurso do Cesário tem tantos pontos de comum com o meu, há tantas encruzilhadas no tempo da acção, no tempo do lugar e no próprio tempo do tempo, que falar deste livro ou do Cesário, é mexer em muitas das minhas próprias «feridas».
Este livro chama-se MEMÓRIAS DA MEMÓRIA: título certo a valer bem um subtítulo que agora lhe acrescento; A Catarse do Tempo.
Hubert Reed escreveu que a Arte «começa sempre com a passagem da indefinição a contorno». Ora, estas memórias, feitas de tantas indefinições, assumiram nesta obra os traços do contorno e aquilo que hoje nos é nítido, aquilo que hoje nos parece natural e óbvio, foi para o Cesário nos anos 60 e 70, um mundo de terríficas dúvidas e indefinições. Sei-o porque partilhámos em comum muitas delas. E por isso não é fácil escrever sobre este livro.
Poucos se lembrariam de escrever um livro assim, feito de avanços e de recuos, feito de tropeções e de saltos, feito de episódios burlescos onde a gargalhada se mistura com o sal da lágrima, onde a esperança quebrava tanta vez o nariz na muralha do desespero ou da frustração, onde o optimismo arrefecia perante o frio glacial do mundo que nos rodeava; mas também feito de heroísmos, actos hercúleos de infância e juventude, animados pela generosidade de quem acreditava nos outros e, no entanto, vivia sob a espada damocleana da ingratidão, como nos episódios que aqui nos são narrados: os do despedimento, o do «pecado original» do roubo do figo, a terrível espera pela semanada do Domingo, e tantos outros exemplos...
Mas vejamos, com algum pormenor, situações e tipos que marcam o olhar atento do autor e, sobretudo a memória que reteve de nomes de pessoas, de eventos e lugares, de frases e reacções que constituem um saboroso fresco deste painel em que está pintada a geração que somos.
Neste livro há aquilo a que JOSTEIN GAARDER, na sua obra Maya, o Romance da Criação definiu como SABEDORIA «a sabedoria a posteriori é uma forma de sabedoria. Olhar para trás pode ser sábio». Ora, Cesário assume, neste sentido, uma atitude de sábio. Por isso nos parece enternecedor, mas sobretudo muito inteligente, o desabafo da Ana Sara quando diz do livro e do pai: «Espero, pessoalmente, poder guardar tantas recordações no futuro como o meu pai guardou. Ele, no entanto, já é uma memória cheia em mim».
Este comentário-desabafo é um verdadeiro hino de amor: é poesia no mais puro sentido do termo!
Cesário merece estas palavras porque teve a coragem de se expor, algo que a maioria de nós teima em não fazer e recalca nos bas fond da memória o que são importantes testemunhos, sobretudo para os nossos filhos. Poderia tê-lo feito mais cedo? Talvez, mas o efeito que o tempo provoca na maturação e na distância, aumenta - como no vinho - o sabor do tanino na degustação que quotidianamente fazemos da realidade.
É um livro de Educação no mais amplo sentido pitagórico. O grande matemático dizia «Eduquem os meninos... e não será preciso castigar os homens». Um pai que desta forma se desnuda perante os seus filhos é alguém que tem um profundo sentido do que é educar. De facto, nem só de bons exemplos se faz um Homem e conhecê-lo implica radiografá-lo. Conhecer assim um pai, é perceber melhor quem somos, mas é também obter a ferramenta necessária com que poderemos calcetar o nosso próprio itinerário rumo ao Futuro.
Como também escreveu a Ana Sara, no seu belíssimo texto, «o Homem forma-se a partir do que vê e sente». Ora, um Cesário que viveu no campo e na cidade, que brincou com a terra e percorreu correndo as ruas e as avenidas do Porto, que trabalhou na idade de ser menino, que ia feliz para a Disneylândia do Senhor da Pedra com mais felicidade e gozo do que para o confessionário, que imprimia às pernas o ritmo frenético do Fausto Coppi, que provavelmente se identificava com o Roy Rogers e o Cisco Kid, que deixava que lhe brilhassem os olhos perante o mundo fantástico dos westerns onde o herói sobrevivia sempre, onde o bem vencia sempre o mal, este homem era o mesmo que na vida real do quotidiano do armazém de mercearia, constatava que havia um outro mundo; que as jóias que trabalhava como ourives refulgiam nas suas mãos, mas eram destinadas a mãos outras, que certamente ignoravam o cansaço e o suor de quem as cravava na poalha da oficina.
Este homem é o mesmo que durante anos percorreu o triângulo da cafeína derramada pelos cafés Soares dos Reis, pelo Intervalo (aquele onde escrevíamos poemas nas paredes, lembras-te?) e no Mon-Ami; é o mesmo que dançava nos bailes de garagem ao som de Johnny Holliday ou Adamo, que amava e fazia projectos, mas que temia o futuro porque África, lá longe, começava já a ser uma realidade bem perto; o Cesário era o mesmo que no Círculo Cultural Soares dos Reis partilhava poemas e discussões sobre o tudo de que julgávamos todos saber imenso, e o nada de que afinal talvez soubéssemos alguma coisa. Nessas noites longas de cigarros, de poesia, de viola, de sonhos com raparigas que nos ocupavam os cérebros febris nas suas curvas sempre apetitosas, nas serenatas frente à Escola de Soares dos Reis de onde, por vezes, caía de uma janela uma tremenda e ingrata baldada de água, nessas deambulações entre os romances nunca acabados do Sérgio, os amores sempre insatisfeitos do António, a voz do Martins elevava-se ao som da viola e juntava-se ao sonho daqueles corpos fogosos, que uivavam na noite de lua cheia desafinadas canções de amor, como jograis que de súbito regressassem, da Idade Média, para a era dos trolley-carros, dos Beatles e dos Shadows.
«O conhecimento do presente necessita do conhecimento do passado que necessita do
conhecimento do presente». A frase é do EDGAR MORIN no livro As Grandes Questões do Nosso Tempo. Como está actual, amigos!
O nosso presente é, afinal, o somatório do nosso passado que não poderíamos aprofundar sem adquirirmos primeiro esta capacidade de experimentar o presente.
Não é retórica, não. É a constatação da verdade, apenas, uma constatação para o qual fui
«empurrado» por este Memórias da Memória.
Falámos já do quanto de arte, de sabedoria e de educação se esconde neste livro sob a aparência diáfana da simplicidade. Importa agora reconhecer uma outra característica: trata-se de um livro de GENEROSIDADE, na medida em que assume duas vertentes que se complementam, sendo que a primeira é a da recordação dos outros que geneticamente o precederam e que aqui revivem, e a segunda é a entrega do autor aos outros através da partilha, com eles, de sentimentos e vivências.
Albert Camus escreveu que «a verdadeira generosidade para com o Futuro consiste em dar tudo no Presente>. Cesário faz precisamente isto, é generoso para com o Futuro ao legar-lhe o seu testemunho, a sua memória, afinal o tudo que possui. E fá-lo com coragem e humildade, aquela mesma humildade que Confúcio definia como «a única base sólida de todas as virtudes».
E não é fácil, não. Não é fácil chegar a um povoado, algures na mata interior de Angola e «À entrada da porta de armas, deparei com cabeças decapitadas e enfiadas em estacas, que ao longe, em contra-luz, parecia serem abóboras a ornamentarem a entrada como se fossem capitéis».
Quando Lídia Jorge escreveu o seu romance A Costa dos Murmúrios, acusaram-na de estar a exagerar. Mas ela sabia que a verdade normalmente é sempre um exagero, porque o real frequentemente ultrapassa a ficção.
Não é fácil, não, falar de um «Vera Cruz» e de uma mensagem atirada dentro de uma garrafa para o mar, à espera que alguém, lá longe, leia o grito que o silêncio obrigatório - mas doloroso - cala no baú do nosso peito arfante de angústia. Eu revi-me nessa mensagem, Cesário, como me revi na lágrima do regresso a uma pátria que a gente, afinal, nem sabia bem o que era. Até porque não se nota bem a diferença entre o sabor da lágrima e o sabor das águas do mar que nos separara tanto tempo.
Como admirarmo-nos, pois, que um soldado desate a disparar de noite, quando lençóis e fronhas esvoaçam a secar no horizonte escuro do aquartelamento? O perigo pode assumir todas as cores e todos os contornos...
Afinal, poderíamos estar aqui a falar imenso tempo, tantas foram as vivências e as encruzilhadas com que o passado nos desafiou.
É preferível, no entanto, ler este livro. E os outros que se lhe seguirão.
O grande Jean Jacques Rousseau escreveu no Emílio, que «é a fraqueza do homem que o torna sociável». As fraquezas do Cesário, aqui descritas, são afinal a força de uma geração que fez a História. Isso ninguém nos pode tirar. Mas importa ir mais longe, meu caro: é preciso partilhar essa História, para que outra surja, para que a dialéctica não esbarre no cruzamento do conformismo. Tu já deste o teu contributo. Que «venham mais cinco» «perguntar ao vento que passa / notícias do meu país».
Este foi o testemunho do Cesário. Mas há outros, muitos outros por aí, nas raivas escondidas e caladas, nos pesadelos das noites mal dormidas, nos stresses incompreendidos.
O futuro somos nós. Ou, como bem melhor disse a Ana: «sou como sou, porque também sou tua filha».
MEMÓRIAS DA MEMÓRIA ou A CATARSE DO TEMPO, Fernando Peixoto
quarta-feira, 22 de abril de 2020
Preso - Fernando Peixoto
Homenagem
aos que morreram nas cadeias fascistas
Foram noites e noites sem dormir,
foram
dias e dias sem contar,
sempre
as mesmas palavras para ouvir,
sempre
os mesmos insultos a escutar,
sempre
os mesmos bastões a carregar,
mais
os choques, a lâmina a ferir,
o
cigarro na carne, a fumegar,
e
a tua boca imóvel, sem se abrir.
Anima-se o carrasco ao pressentir
no
teu corpo acabado de cair
essa
dor que precede a confissão.
Mas
tu sabias a ciência rara
que
diz que um Homem nunca vira a cara
e morreste aos seus pés dizendo: NÃO !
Etiquetas:
25 Abril,
Abril,
Fernando Aníbal Costa Peixoto,
Fernando Peixoto,
Helena Peixoto,
Maria Helena Peixoto,
Poesia,
Revolução de Abril
Fernando Peixoto - vida e obra
O blogue Arca de Ternura regressou ao activo. Este blogue pretende ser um local onde poderemos reencontrar a voz e as palavras de Fernando Peixoto.
Os vários textos, poemas, testemunhos ou mesmo filmagens terão agora um cantinho repleto de ternura.
Deixo um apelo a todos que tèm elementos diversos sobre o meu pai que enviem por aqui ou pelo email (peixoto.mh@gmail.com) para fazermos crescer este cantinho e dar a conhecer a vastíssima obra com que enriqueceu as nossas vidas.
Etiquetas:
25 Abril,
Abril,
Fernando Aníbal Costa Peixoto,
Fernando Peixoto,
Helena Peixoto,
Maria Helena Peixoto,
Poesia,
Revolução de Abril
Subscrever:
Comentários (Atom)








